Enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete deixa ao menos 31 mortos e centenas de desaparecidos, incluindo quase 400 viajantes; autoridades apontam terremoto seguido de avalanche como possível causa.

Uma enxurrada repentina seguida por um deslizamento de terra na fronteira entre o Nepal e o Tibete, ocorrida nesta quarta-feira, resultou em uma tragédia de grandes proporções. O balanço mais recente, atualizado às 20h30 no horário local (11h30 em Brasília), confirma a morte de pelo menos 157 pessoas no Nepal. Centenas de turistas e moradores locais continuam desaparecidos, enquanto equipes de resgate correm contra o tempo.
O desastre, descrito por um porta-voz local como tendo uma dimensão "além da imaginação", deixou um rastro de destruição em diversas áreas. O distrito de Chitwan foi o mais atingido, com 33 mortes confirmadas. As regiões de Rasuwa e Nuwakot também sofreram danos severos. A infraestrutura foi gravemente afetada, com estradas, pontes, redes de comunicação e projetos hidrelétricos, como o de Trishuli, sendo destruídos ou danificados.
A situação é particularmente crítica em relação ao número de desaparecidos. Segundo o Conselho de Turismo do Nepal, cerca de 579 viajantes, sendo 466 estrangeiros e 61 nepaleses, ainda não foram localizados. Os turistas são de 28 nacionalidades diferentes, com um grande número de indianos, americanos e britânicos entre eles.
Outras nacionalidades incluem malaios, sul-africanos, um australiano e um holandês. O Itamaraty informou que, até o momento, não há registro de brasileiros entre os desaparecidos. Além dos turistas, centenas de nepaleses, incluindo 44 militares, 41 policiais (entre força regular e paramilitar) e 60 trabalhadores de projetos de energia, também estão desaparecidos.
A China também reportou "grandes perdas de vidas" no lado tibetano da fronteira, com um balanço inicial de três mortos e 265 desaparecidos. O presidente chinês, Xi Jinping, ordenou um esforço total de resgate. A Índia, por sua vez, enviou 10 toneladas de ajuda humanitária ao Nepal. Autoridades sul-coreanas monitoram a situação de oito cidadãos que trabalhavam na região e estão "incomunicáveis".
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O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, afirmou que o país está "em choque e profundamente abalado" e que o governo mobilizou todos os recursos disponíveis para as operações de resgate. O exército nepalês está à frente dos esforços, com 1.697 militares em campo e outros 656 de prontidão.
Ao longo do dia, helicópteros militares e civis conseguiram resgatar 106 pessoas, enquanto equipes em terra salvaram outras 27. As buscas continuarão durante a madrugada. A evacuação de um grande número de pessoas isoladas na cidade de Timure está planejada para a manhã de quinta-feira.
A principal hipótese para o desastre é uma complexa cadeia de eventos iniciada por uma avalanche de gelo. Especialistas analisam a possibilidade de que um enorme bloco de gelo, possivelmente parte de uma geleira, tenha desabado de uma montanha no lado tibetano.
Essa queda teria arrastado rochas e sedimentos, bloqueando temporariamente o fluxo de um rio e formando uma represa natural. O rompimento súbito dessa barreira teria liberado uma onda devastadora de água, lama e detritos rio abaixo.
Inicialmente, o ministro das Relações Exteriores do Nepal mencionou a ocorrência de um terremoto. No entanto, uma análise do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) esclareceu que os sinais sísmicos detectados foram, na verdade, gerados pelo próprio deslizamento de terra, e não por um abalo sísmico. A confirmação da causa exata ainda depende da análise de imagens de satélite mais nítidas, atualmente dificultada pela cobertura de nuvens da monção.
O impacto humano da tragédia é devastador, como mostram os relatos de quem sobreviveu à fúria das águas.
Kalpana Malla, moradora do distrito de Nuwakot, perdeu quase toda a sua família. "A enchente levou tudo de mim. Meus familiares foram arrastados pela enchente diante dos meus olhos", disse ela. "Meu pai, minha mãe, minha irmã e os filhos dela foram todos arrastados. Não havia qualquer possibilidade de escapar." Ela e seu filho sobreviveram ao subir no telhado de uma casa.
"Essa enchente levou tudo, mas meu filho e eu subimos no telhado de uma casa e sobrevivemos, embora eu não consiga explicar como." - Kalpana Malla, sobrevivente.
Sonam Dorjee, um guia de trekking, estava saindo de sua aldeia, Syafru Besi, quando ouviu o som da enchente, que ele descreveu como "um terremoto". Sua casa foi destruída e sua irmã, Dechen Tamang, está desaparecida junto com outros familiares. "Muitos sobreviventes ficaram agora sem casa e precisam de resgate, alojamento temporário e apoio médico", relatou.
Imagens que circulam nas redes sociais mostram a força da correnteza no distrito de Nuwakot, arrastando uma ponte e fazendo prédios de vários andares desabarem. O desastre é considerado o mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.
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